escritos / 2 de outubro de 2026

Dois dias no Synergy 2026: como a Reforma Tributária e a IA estão impactando o mercado da Contabilidade

Passei os últimos dois dias no Synergy 2026 representando a MAC Consultoria Contábil. É o evento da Soluções Domínio, da Thomson Reuters, sobre tecnologia e inovação no mercado contábil, e este ano reuniu cerca de mil escritórios e mais de dois mil profissionais da contabilidade num auditório lotado.

A parte técnica girou em torno da Reforma Tributária, e a exposição do Prof. Fellipe Guerra sobre o tema foi excelente. Também deu para ouvir Pedro Nery e Alfredo Soares, que são sempre ótimos, falando sobre como sair do básico do dia a dia e criar oportunidades novas no nosso mercado.

Voltei com o caderno cheio e convencido de que o mercado de contabilidade está mudando bastante.

Juntei aqui o que vi e aprendi, tema por tema. Ficou longo, mas acho que vale a leitura.

O tom do evento: "você além do agora"

O primeiro dia se chamou "O Agora" e tratou dos problemas de hoje. O segundo, "Além do Agora", foi sobre quem queremos ser amanhã. Os dois assuntos que mais apareceram foram a Reforma Tributária e a inteligência artificial. Na palestra de abertura, anotei uma frase:

"A Reforma Tributária muda as regras do jogo. A Inteligência Artificial muda a forma como jogamos esse jogo."

Também mostraram, antes da publicação, alguns números de uma pesquisa do Thomson Reuters Institute:

  • só 17% dos contadores acreditam que a Reforma vai simplificar o dia a dia deles, e 55% acham que vai ficar mais complexo;
  • apenas 10% dos escritórios têm um plano estruturado para atravessar a transição, mas 73% esperam muito mais demanda por serviços especializados.

Pelo que ouvi, vem aí uma dança das cadeiras no mercado contábil: preços vão ser renegociados, clientes vão trocar de escritório e vão surgir serviços novos.

Reforma Tributária na prática

Ricardo Amorim falou do lado econômico da reforma. Para ele, a mudança começa de verdade em 2027, quando a CBS entra em vigor junto com o cashback para a população de baixa renda. Mesmo com o imposto novo, esse mecanismo e a proibição das bets podem devolver um pouco de dinheiro para o consumo.

Ele também falou do split payment. Quando o imposto passar a ser retido na hora do pagamento, o caixa das empresas vai apertar, e isso numa época em que a inadimplência já está em nível recorde.

O professor Fellipe Guerra entrou nos detalhes técnicos e mostrou que o cenário pode ser menos simples do que parece. Para orientar as decisões das empresas, o contador vai ter que olhar com cuidado o perfil de clientes e fornecedores, o mix de produtos, a capacidade de gerar créditos e até o crédito presumido sobre estoques.

Pedro Nery dividiu a Reforma em seis pilares (precificação, alíquotas, apuração assistida, débitos, créditos e combate à sonegação) e mostrou que cada um abre uma fonte de receita, como consultoria de precificação, parametrização de sistemas e BPO fiscal. Um exemplo dele me fez pensar: depois da Reforma, numa negociação entre comprador e vendedor, "tem contador dos dois lados".

A mensagem dos palestrantes foi que a Reforma precisa virar produto e serviço para o escritório, e uma nova fonte de renda. O contador tem que se mostrar especialista antes que o cliente aprenda sobre o assunto pelas redes sociais.

Tecnologia e IA no operacional

Na Jornada de produtos, a Domínio disse sem rodeio que, com tudo digitalizado, não faz mais sentido aceitar redigitação e retrabalho.

A pesquisa do Thomson Reuters Institute trouxe mais alguns números que incomodam:

  • 78% dos escritórios ainda recebem as notas só na virada do mês;
  • 82% fazem o fechamento fiscal à mão;
  • só 28% usam o Open Finance para buscar as informações financeiras dos clientes.

Das novidades que a Domínio apresentou, anotei estas:

  • Domínio IA, uma inteligência artificial dentro do próprio sistema contábil. Ela analisa documentos, transforma relatórios em dashboards e ajuda nas conferências, sem tirar os dados do cliente do ambiente seguro.
  • Uma suíte nova de aplicativos para o escritório, o cliente e o funcionário. Com ela, uma admissão, por exemplo, vai poder ser feita de forma totalmente digital.
  • Ferramentas para a Reforma: um painel de apuração assistida na escrita fiscal, com auditoria nota a nota, e um módulo com simulador de regimes tributários, precificador e perfil tributário de cada empresa.

De contador a empresário contábil

O segundo dia foi sobre gestão. Pedro Nery falou do "empresidiário", o empresário preso no próprio operacional, e contou que 89% dos escritórios ainda não funcionam sem o dono. Na visão dele, a saída é montar um negócio que se gerencie sozinho, apoiado em pessoas, processos e tecnologia. E avisou que "nenhuma tecnologia é autoexecutável" se não vier junto com os outros dois.

Alfredo Soares lembrou que o principal canal de vendas de um escritório é o próprio sócio, e o segundo é a indicação. Ele trabalha com quatro alavancas: marca pessoal, conteúdo, comunidade e endosso. Para ele, a Reforma abre "a maior janela de troca de carteira da história da contabilidade". Anotei duas frases dele:

"Seu diferencial nunca é o que você pensa. É o que o seu cliente compra."

"Contador não produz conteúdo para ficar famoso, produz para educar o cliente."

O que esperar daqui para frente

Se eu tivesse que resumir a visão de futuro do Synergy numa frase, seria esta: a contabilidade deixa de ser retrovisor e passa a ser farol.

  • A CBS entra de fato em 2027, e a transição continua até 2033. Como disseram na abertura, "a Reforma não é um projeto, é a nova rotina".
  • Com automação e IA agêntica, o trabalho operacional vai encolher muito, e isso pressiona os honorários cobrados por tarefa.
  • O contador vai ser pago para interpretar, antecipar e recomendar, mais do que para processar, registrar e reportar. A cobrança tende a sair das horas trabalhadas e ir para o valor gerado.
  • Quanto mais coisa a máquina fizer, mais valem confiança, validação humana e governança.
  • Quem tiver resposta quando o cliente trouxer uma pergunta nova vai ganhar espaço.

O que eu levo para casa

Saí do Synergy com mais perguntas do que respostas, e bem motivado. O cenário é difícil, mas tem muita oportunidade nele.

Fico também com uma frase que pretendo levar para o dia a dia:

"Clareza não é ponto de partida. Clareza é consequência de ter começado."

Obrigado à Thomson Reuters pela organização e a todos os palestrantes e colegas com quem troquei ideias nesses dois dias.